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Os portugueses e os nomes estrangeiros

em 02/06/21


Converso com frequência com leitoras de outras partes do mundo e por vezes surge a questão de como determinado nome seria aceite em Portugal, caso a família decidisse mudar-se para cá. Eu continuo a achar que os portugueses são muito conversadores no que respeita a nomes próprios mas são-no sobretudo entre pares, ou seja, se um casal de portugueses escolher um nome que fuja do lote de nomes tradicionalmente escolhidos em Portugal, já se sabe que vai ser tema de conversa. Porém, acho que, de maneira geral [e excluo aqui as grafias criativas, seja em português ou noutra língua], encaramos com muita naturalidade os nomes dos cidadãos estrangeiros, precisamente porque damos tanto valor à preservação da nossa própria antroponímia.  

E não se pense que não usamos nomes "estrangeiros" por desconhecimento, porque também acho que estamos profundamente familiarizados com nomes anglo-saxónicos, espanhóis, franceses e italianos, quer por via da cultura pop - por exemplo, nós não dobramos filmes ou séries - quer por via do desporto [sobretudo graças ao futebol internacional, no que respeita a nomes masculinos]. 

É verdade, então, que nós não saímos muito da nossa zona de conforto e os comentários diariamente deixados neste blog ilustram bem isso, mas se estão a escolher um nome para um bebé, ao mesmo tempo que ponderam uma mudança para Portugal, acho que não têm motivos de preocupação. 

E desse lado, partilham da minha opinião? Quem vive na capital, estando num meio mais multicultural, pensa da mesma forma? 

Dylan

em 06/03/19


A segunda-feira passada foi um dia de grandes recordações para quem cresceu na década de 90, devido à notícia do falecimento do músico Keith Flint, dos The Prodigy, e do actor Luke Perry, que foi um dos protagonistas da série Beverly Hills 90210, interpretando o incrível Dylan McKay. A série foi um enorme sucesso também em Portugal e parece-me evidente que impulsionou os registos do nome Dylan naquela altura. 
Pois é, há cerca de um mês falamos aqui da popularidade de Dylan, que apesar de só ter sido aprovado em 2017, já está no top 100, com cerca de 50 registos. Mas a verdade é que se trata de um reingresso, uma vez que Dylan até já esteve no nosso top 50 [entre 94 e 97] e, em 1996, foi escolhido para mais de 300 meninos portugueses, o que é impressionante! E mais: só em 2002 é que baixou da fasquia dos 100 registos anuais e só deixou o top 100 em 2007 - e mais à frente, acho que de perceberá por quê. 
Não sei bem como funcionava o registo dos recém-nascidos nessa época mas, seguramente, os pais não iam à internet consultar uma lista de nomes aprovados. A inexistência dessa lista online, juntamente com o regresso a Portugal de vários cidadãos que estavam fora, explicará, em parte, a quantidade de registos de Dylan, mas arrisco dizer que não devia ser propriamente "proibido". Contudo, Dylan está na lista mais antiga de nomes proibidos que possuo, com data de 2006! 

Scarlett

em 24/01/18


Quando nos confrontamos com um nome menos ouvido em Portugal, a reacção mais frequente é inseri-lo naquela categoria épica, que carinhosamente gosto de apelidar de "É bonito e tal, mas faz lembrar...". Não vale a pena lutar contra isso, afinal, aprendemos a falar através de rimas e recorremos desde cedo a mnemónicas, portanto, ouvimos uma palavra e associamos logo a outra. É um bocado infantil, mas também é instintivo, pelo que convém aceitar e seguir com a vida. 
Os nomes estrangeiros, logicamentesofrem menos deste mal. Peguemos no exemplo de hoje: quando me deparo com Scarlett, não penso em escarlate nem em doença escarlatina. Penso na giraça da Scarlett Johansson. É claro que isso não o transforma de imediato no mais usável dos nomes mas associá-lo a pessoas faz mais pelo nome do que associá-lo a substantivos ou adjectivos que têm quase sempre um lado negativo. 

Origem & Significado

A partir de uma palavra persa, o inglês scarlet remete para escarlate, pelo que o seu significado está associado à cor vermelha. Começou por ser um apelido associado a pessoas que vendiam tecidos brilhantes e passou a nome próprio quando foi escolhido pela escritora de E tudo o vento levou para a personagem icónica de Katie Scarlett O'Hara, que viria a ser eternizada no cinema pela atriz Vivien Leigh. 

Popularidade pelo mundo

Scarlett está em alta nos EUA, tendo chegado ao top 20 pela primeira vez em 2016, quando foi escolhido para 7680 meninas, que corresponde à 18.ª posição. Ocupa exatamente a mesma posição na atual tabela de nomes populares de Inglaterra & Gales e o Behind the Name mostra que esta popularidade se estende a vários países anglo-saxónicos. 

Estado atual em Portugal 

Aprovado. As variantes Scarlett e Scarlet foram recentemente adicionadas à lista de nomes permitidos em Portugal e, no conjunto, somam sete registos entre 2015 e 2017. Não me parece que, subitamente, vá cativar os portugueses. 

Nomes estrangeiros permitidos em Portugal
- Jonathan -

em 20/01/17


Há cerca de meio ano, o IRN divulgou que Jonathan passava a ser um dos nomes registáveis em meninos portugueses. Uma vez mais, é uma aprovação - ou talvez seja mais apropriado dizer atualização da lista - que parece vir a destempo, porque o momento alto de Jonathan em Portugal deu-se nos finais da década de 80, ao ponto de estar na 50.ª posição do ranking em 1990, com 220 registos [praticamente os mesmos de Filipe & Matias, em 2016]. Pelas minhas contas, existem mais de 1600 rapazes portugueses chamados Jonathan, nascidos entre 1990 e 2016, pelo que não estamos perante um nome de introdução recente ou de uma novidade mas, pelo percurso que tem feito nos últimos anos, é um forte candidato a um regresso ao top 100, de onde saiu em 1998. 
Jonathan tem origem hebraica, significa "dádiva de Deus" e é um nome bíblico. Não é um nome que me diga muito e o mesmo se passa com as variantes Jonatã e Jonatas. Por aproximação, simpatizo mais com Jonas ["pomba"] que, curiosamente, no meu círculo de amigos, é um diminutivo algo comum para João! 

Nomes estrangeiros para meninos portugueses

em 13/10/16


Esqueçamos os aportuguesamentos: hoje em dia, é perfeitamente possível registar um bebé português com um nome que, muito possivelmente, nos remeterá de imediato para o universo anglo-saxónico, com tudo de bom [nome internacional] e tudo de menos positivo [soletração, pronúncia errada] que isso acarreta. Hoje elenco alguns dos mais contemporâneos que estão presentes na lista do IRN: 


  • Brian, Bryan e Dilan
Brian & Bryan são de introdução recente em Portugal [Brian foi aprovado em 2012 e Bryan em 2016] mas são nomes com que estamos familiarizados. Bryan Adams, por exemplo, tem uma legião de fãs em Portugal que já atravessa gerações. Brian May, dos Queen idem. E Bryan Cranston, de Breaking Bad. Quanto a Dilan, ontem escrevi que era nome de músico de excelência mas agora posso acrescentar que é nome de cantautor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura!  

  • Caleb e Jacob
Sei que não é inteiramente justo intitular estes dois nomes bíblios de estrangeiros, mas muito sinceramente, se vir estes nomes escritos numa folha, vou pronunciá-los "à inglesa", porque não têm tradição nenhuma em Portugal, por mais que os possamos ter ouvido aos domingos, na igreja. 

  • Christian e Jonathan
O sucesso do Cristiano Ronaldo não se estendeu ao nome, que tem vindo a perder popularidade desde os anos 1990 mas Christian tem a vantagem de parecer mais leve e cool. Ambos são bíblicos, com um significado marcadamente religioso [Christian significa cristão e Jonathan significa dádiva de Deus].  Estão às portas do top 50 nos EUA, num período de perda de popularidade que, no caso de Jonathan, foi maior em 1980 e, no de Christian, no ano 2000.  Compridos q.b., têm ainda como bónus os diminutivos Chris e Jon. 

  • Damien e Hayden
Damien está aqui com alguma boa vontade minha, porque esta variante é mais francesa do que anglo-saxónica, mas Damien aproxima-se tanto de Damian que mal se dá pela diferença. Já que Damião não consegue cativar os portugueses, talvez Damien, que é mais delicado, o possa fazer. Quanto a Hayden, trata-se de um nome inglês cujo significado só consigo traduzir como "colina pagã" [heathen-grown hill, em inglês]. Parece-me um nome super atual e juvenil, por associação à moda dos Jaydens, Braydens e Kaydens.  

  • Eric e Oliver
Aprovado em 2015, Oliver é atualmente o nome mais popular na Inglaterra portanto não podia ser mais contemporâneo. Eric esteve no top 100 português em 2009 e 2010; se em 2015 juntássemos os registos de Eric com os de Erik - que também é aprovado - seria o suficiente para chegar à 73.ª posição. Na minha opinião, se estiverem preocupados com inconvenientes relacionados com grafias e pronunciações, Eric e Oliver são das escolhas mais seguras, porque se adaptam muito bem à língua portuguesa!

  • Kevin
Não precisa de grandes apresentações nem de incentivo ao uso. Kevin já está na 57.º posição do ranking e só foi aprovado há um ano! E agora que podemos pôr de lado aqueles aportuguesamentos a que estávamos obrigados, o nome ganha outra vida! 

  • James e Liam
James e Liam são muito populares lá fora mas Liam, versão irlandesa de William [ou será apenas o seu diminutivo?!] também está em alta em vários países europeus. Acho Liam muito interessante. Aliás, para ser sincera, acho-o o mais bonito destes todos! E se estivesse à procura de um nome internacional, fácil de dizer, este estaria na minha lista, de certeza! 


  • Joshua, Micah e Noah
Noah já integra o lote de cem nomes masculinos mais registados no país, mas Micah e Joshua são duas das "novidades" de 2016. Quem procura um nome contemporâneo e totalmente credível [o carimbo da Bíblia tem sempre relevo], pode ter aqui uma boa oportunidade. Temo, no entanto, que a pronunciação de Micah [deverá soar a Máica] possa ser um pequeno obstáculo.